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Jornal do Brasil           06/10/2002

América do Sul: alvo nazista

Embaixador revela que partes do Brasil e do Chile seriam dominadas pelos alemães

Denise Assis

Especial para o JB

Não tivessem os aliados derrotado Adolf Hitler, pondo um ponto final à Segunda Guerra Mundial, e a América do Sul, hoje, teria outra feição. Os 13 países do continente seriam transformados em apenas cinco, sendo que a Argentina - país, na época, com muitos simpatizantes do nazismo - teria primazia sobre os demais.

O Brasil cederia a parte sul, onde se encontrava uma das maiores colônias alemãs da época. Gigante pela própria natureza, como nos versos do hino, o país da região com maior território se veria submetido a uma nova linha geopolítica determinada pelos arianos.

A revelação foi feita, esta semana, pelo embaixador Sérgio Corrêa da Costa, no Rio. Para comprovar a informação, dada após 60 anos de silêncio, ele exibiu também um mapa apreendido pelo British Security Coordination (serviço secreto inglês) em 1941, na Rua Paissandu, no Flamengo, próximo ao consulado alemão.

O mundo, então, estava em guerra e o Brasil era alvo de americanos - que sonhavam estabelecer aqui bases militares - e nazistas, cujo espírito expansionista não tinha limites. Apesar de uma simpatia inicial pelos arroubos nazistas, o Brasil acabou optando pelos americanos, em troca da instalação da Companhia Siderúrgica Nacional.

O que não se sabia, até então, era a amplitude da volúpia de Hitler com relação à América do Sul. Pelo mapa da cúpula nazista, o Chile praticamente desapareceria, ficando restrito à sua atual Região Norte. A Venezuela se fundiria à Colômbia, dando origem a um país chamado Newspanien (Nova Espanha).

A queda do espião portador da nova carta da América do Sul, no Rio, diz o embaixador, foi mais um dos fatores para que o presidente Franklin Roosevelt decidisse pela entrada dos EUA na guerra. O governo americano passou a se preocupar com a situação do Brasil:

-Por ser um imenso celeiro de recursos naturais, e por ter uma importante parcela de sua população de origem alemã - observa o embaixador, acrescentando que a maioria das escolas de Santa Catarina era mantida pelos alemães.

Adolph Berle - secretário de Estado assistente, encarregado da ligação com o FBI e com os serviços militares de informação - previu o ataque partindo da Noruega em direção aos Estados Unidos e um outro visando ao Brasil. Por isso, o chefe da missão militar americana no Rio, coronel Lehman Miller, solicitou o alto comando brasileiro a criar um serviço secreto para vigiar os súditos do Eixo.

Contemporâneo de tudo isso, Sérgio Corrêa da Costa, 81 anos, contou em entrevista exclusiva ao Jornal do Brasil, que acompanhou decisões políticas e militares não apenas como funcionário do Itamaraty - na época lotado no Arquivo Histórico de Buenos Aires - mas também como jovem irrequieto, que por não ter chance de ser convocado para o front, pela função que desempenhava, fez ''uma guerra particular''.

Perguntado se isso queria dizer que atuou como espião pelos aliados, Corrêa da Costa assentiu. Os olhos faiscaram e, com o ar de quem fez uma viagem no tempo, protestou:

-Você acabou de me arrancar um segredo de mais de 50 anos, que não revelei nem para a minha mulher.

Pudera. Suas peripécias como espião incluíam encontros furtivos em cinemas, teatros e restaurantes, com eventuais colaboradoras dos serviços inglês e americano, onde as informações eram passadas sob a forma de cochichos.

·         Se fosse meu superior e soubesse metade do que aprontei, me demitia. Fiz loucuras pela causa.

Diplomata guardava segredos de guerra

A primeira missão do embaixador Sérgio Corrêa da Costa no exterior foi em Buenos Aires. Ele que ao longo da vida serviu em Londres, Nova Iorque e Washington, chegou à capital Argentina aos 20 anos, logo após o golpe de que já participara o coronel Juan Domingo Perón, e que havia deposto o governo civil. Os militares, que não escondiam suas simpatias pela Alemanha nazista , assumiram o controle total.

Apesar de suspensas as relações com o Brasil, o Itamaraty o fez partir para lá, onde conheceu uma figura de expressão da política local, o secretário-geral do Ministério das Relações exteriores, José Embrioni. Dos almoços e conversas reservadas com a alta patente surgiram revelações que o então simples funcionário do Itamaraty achou por bem registrar em diário.

Logo a brochura estava recheada de segredos militares e de guerra. Um dia Sérgio concluiu que, sem poder publicar uma linha sequer do que anotava, acabaria refém daquele caderno. E se fosse roubado? Fez chegar ao Itamaraty as informações que julgou importantes e o incinerou. Desde então, deixou de tomar notas de fatos que presenciou e marcaram a história contemporânea, como o assassinato acontecido a cinco metros dele, do colombiano Jorge Eliezer Gaitán, em 1948, a quem o embaixador descreve como um misto de Getúlio Vargas e Luiz Carlos Prestes.

Apesar de ter estado sempre na cena de episódios cruciais, Corrêa da Costa furtou-se de anotá-los e de escrever suas memórias. Hoje, aos 81 anos, revê a decisão.

- Menos de 10 minutos depois da minha saída, o tempo de alcançar o Hotel Metrópole, que ficava a uma quadra, o palácio presidencial foi arrasado - recorda.

Autor de livros como Palavras sem Fronteiras, e Brasil, Segredo de Estado, lançados pela Editora Record em 2001 e já na quarta edição, Sérgio Corrêa da Costa é membro da Academia Brasileira de Letras. Agora, prepara-se para mudar-se de Paris para o Rio.

Mapa reduzia o Brasil

Descoberta foi citada por Roosevelt

O registro de ocorrência da apreensão do mapa elaborado pelos nazistas e que daria uma nova feição à América do Sul era sucinto: ''Funcionário alemão seguido por agentes ingleses sofreu um acidente. Sua pasta foi tomada e aberta. Dentro dela encontrava-se um mapa da América do Sul''. O embaixador Sérgio Corrêa da Costa conta que teve acesso ao exemplar, do qual tem uma cópia pendurada na parede de sua sala, em Paris.

- O sujeito sofreu um discreto esbarrão na calçada da Rua Paissandu e teve morte instantânea. Quem esbarrou recolheu discretamente sua pasta, bem ao feitio das ações dos funcionários do British Security Coordination (BSC).

Era a seguinte a proposta de redistribuição territorial nazista para a América do Sul, em caso de vitória:

1- O Brasil perderia os Estados da Região Sul do país, no novo desenho do continente.

2- A Argentina absorveria o Uruguai, o Paraguai, toda a parte baixa da Bolívia e um corredor para o Pacífico na altura de Antofagasta; com isso, o território do país vizinho se estenderia em direção à Amazônia, indo muito além de Corumbá.

3- O Chile perderia sua parte inferior, e incluiria o restante do Peru e da Bolívia.

4- Surgiria a Nova Espanha, formada pela Colômbia, Venezuela e Equador, mais o Panamá e a Zona do Canal.

5- As três Guianas seriam unificadas. O mapa foi mostrado ao presidente Roosevelt, que o citou em discurso irradiado em 27 de outubro de 1941.

''Os peritos geógrafos de Berlim obliteraram brutalmente todas as linhas divisórias para reduzir a América do Sul a cinco estados vassalos, todos sob dominação alemã'', protestou o presidente americano, durante discurso em Washington.

Soube-se depois, que a própria Gestapo havia investigado o incidente. Havia apenas dois exemplares desse mapa. Um no cofre de Hitler, outro confiado ao embaixador alemão em Buenos Aires, Von Thermann. A culpa do vazamento foi atribuída a Gottfied Sandstede, antigo adido civil da embaixada germânica e membro proeminente no partido nazista argentino. O funcionário alemão pagou muito caro por reproduzir o mapa.

Acabou assassinado em Buenos Aires por seus próprios homens. 

Wir danken der Botschaft von Brasilien für die Überlassung dieses Artikels.

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